Entrevistas

Vencer o vício é possível? Conheça a história do professor Maurício.

Por Anna Júlia Ferreira

31/07/2026 21:07

Destaque
Professor Maurício Papa de Arruda. Arquivo pessoal.

Atualmente, o uso de cigarros, “vapes” e outros produtos que contêm nicotina é amplamente discutido e desencorajado pela sociedade. Ainda assim, muitos jovens acabam experimentando essas substâncias e, com o tempo, podem perder o controle sobre o consumo. Isso pode acontecer por diversos motivos, como a influência de amigos, a busca por pertencimento, problemas pessoais, curiosidade, entre outros fatores.


Pensando nisso, conversamos com o professor de Biologia do campus Patrocínio,  Maurício Papa de Arruda, que compartilha sua trajetória desde o primeiro contato com o cigarro até a superação do vício. Esperamos que esta história ajude você a compreender os riscos da dependência da nicotina e mostrar que, apesar das dificuldades, é possível vencer esse hábito.


A.J.: Como começou o seu contato com o cigarro? O que fez você experimentar pela primeira vez?


M: Meu primeiro contato com o cigarro foi aos 14 anos, no final do 9º ano do ensino fundamental. Minha principal motivação foi a curiosidade em experimentar algo novo.


A.J.: Na época, você imaginava que o cigarro poderia se tornar um vício ou parecia algo que estava sob controle?


M: Na verdade, eu não pensava muito nas consequências a longo prazo. Sentia-me recompensado com o uso do cigarro por aquele prazer momentâneo da droga. Além disso, naquele momento, o cigarro serviu também como uma espécie de ponte para novas amizades e para a inserção no grupo social.


A.J.: Em que momento você percebeu que fumar já não era apenas um hábito, mas uma dependência?


M: Quando minhas rotinas diárias só se tornavam satisfatórias se eu estivesse com um cigarro no bolso.


A.J.: Qual foi o maior desafio que você enfrentou durante o período em que fumava?


M: No início do vício, não encontrei dificuldades — meu corpo jovem tolerava bem a substância. Porém, com o passar dos anos, tive problemas de saúde recorrentes, especialmente infecções de garganta.


A.J.: O que motivou a decisão de parar de fumar? Houve algum momento ou acontecimento marcante?


M: Aos 24 anos, tive uma infecção de garganta tão grave que nem os antibióticos resolviam, mesmo testando vários tipos. Quando passei por um médico, ele foi enfático ao dizer que eu deveria parar de fumar, caso contrário, poderia ter problemas bem mais sérios. Após esse episódio, tomei a decisão de parar de uma única vez: peguei o maço cheio e joguei no lixo.


A.J.: Como foi o processo para abandonar o cigarro? Quais estratégias ou apoios fizeram mais diferença?


M: Durante o processo, percebi que o álcool era um forte chamariz para o tabagismo — sempre que consumia bebidas alcoólicas, vinha uma grande vontade de fumar. Assim, quando parei com o cigarro, também parei com o álcool. Isso me ajudou a diminuir a abstinência e a manter a decisão.


A.J.: Depois de parar de fumar, quais foram as maiores mudanças que você percebeu na sua saúde, na sua rotina e na sua qualidade de vida?


M: Minha respiração melhorou muito, meu condicionamento físico para praticar esportes também e, obviamente, minha garganta foi totalmente curada daqueles processos recorrentes de infecção.


A.J.: Hoje, olhando para trás, existe algo que você gostaria de ter ouvido quando era jovem e que talvez tivesse evitado esse caminho?


M: Penso que olhar para trás com arrependimentos não produz nada de bom. Enxergo aquela situação como um aprendizado que permitiu meu amadurecimento. A vida é um contínuo de transformações: aquele jovem do passado não existe mais, e esta pessoa do presente só existe dessa forma porque a do passado trilhou aquele caminho. Procuro valorizar minhas cicatrizes com gratidão, pois foram elas que me permitiram mudar o olhar.


A.J.: Muitos adolescentes acreditam que "só experimentar uma vez" não faz mal. O que você diria para eles com base na sua experiência?


M: Eu diria que todo hábito ou apego é danoso, pois tudo na vida é impermanente. Obviamente, existem hábitos mais ou menos danosos, e o cigarro é, sem dúvida, muito prejudicial à saúde.


A.J.: Se pudesse deixar uma única mensagem para os jovens sobre vícios, escolhas e futuro, qual seria?


M: O nosso corpo é a nossa casa. Como vocês têm cuidado dela? Buscar satisfação em um objeto externo é uma grande ilusão. A liberdade começa quando percebemos que a verdadeira satisfação vem de dentro.