Laira Arvelos é uma escritora patrocinense e estudante do curso superior de Letras do IFTM. Ela é poetisa, com dois livros publicados atualmente. Luta pelos direitos femininos e usa sua escrita como arma em busca de igualdade. Nesta entrevista, vamos conhecer os desafios que Laira enfrenta e um pouco de sua trajetória.
1. Como foi o seu início na escrita sendo de uma cidade do interior, onde muitas vezes o acesso ao meio literário é mais limitado?
Sempre fui uma leitora assídua, mas o ato de 'escrever' de fato surgiu em 2019, com a minha participação em uma competição de poesia na modalidade Slam. Acredito que ser do interior pode limitar um pouco a questão da publicação ou do alcance, mas não a escrita em si. Para mim, o início da escrita se misturou a uma jornada de autodescoberta e ao meu processo de tratamento da depressão.
2. Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou para publicar seu livro e como lidou com elas?
Meu primeiro livro nasceu em uma editora independente que tem como principal missão apoiar poetas iniciantes. Fui muito privilegiada, pois o livro anterior da editora abriu caminho para o meu, e o meu, por sua vez, ajudou o próximo. A editora teve um cuidado especial com as questões financeiras iniciais, que são um grande desafio nesse tipo de atividade.
Já com o segundo livro, agora por outra editora, a maior dificuldade foi atingir a meta de pré-venda, uma condição essencial para que a publicação fosse efetivada. O custo dos livros é bem alto, então esse processo de venda, quando não se tem um nome conhecido ou muitos meios de alcance, é bastante exaustivo.
3. Em algum momento você pensou em desistir da escrita? O que te fez continuar mesmo assim?
Em muitos momentos penso em desistir da publicação de livros, mas da escrita, nunca. Acredito muito na força da palavra, na potencialidade da literatura e no alcance que ela tem de pessoa para pessoa. Continuo porque não me vejo existindo em um mundo onde eu não escrevo. Além disso, os feedbacks dos leitores, que me leem ou me ouvem, são um grande combustível. Recentemente, uma aluna me disse que 'não era de ler', mas que depois que pegou meu livro, não parou mais. Isso não tem preço!
4. Suas poesias carregam mais vivências pessoais ou observações do mundo ao seu redor? Como você equilibra isso na escrita?
Acredito que minhas primeiras poesias eram muito carregadas de experiências pessoais. Atualmente, tenho tentado experimentar novas formas, mas mesmo nas que observo o mundo, sempre me posiciono. Não creio que seja possível se afastar tanto do que se escreve, principalmente na poesia. Quanto ao equilíbrio, às vezes consigo, às vezes não. Às vezes, utilizo recursos de forma intencional; cada texto é uma novidade.
5. Existe algum tema nas suas obras que você sente que ainda não foi completamente compreendido pelos leitores?
Espero que não, no sentido de que não haja uma única verdade absoluta. Na verdade, eu gosto de pensar que cada releitura do mesmo texto, cada nova escrita sobre o mesmo tema, deve ampliar as dúvidas e diminuir as certezas. Para mim, a beleza da poesia está justamente em permitir múltiplas interpretações, em provocar o leitor a pensar e a sentir de formas diferentes a cada contato com a obra. Não busco uma compreensão total e fechada, mas sim um diálogo contínuo, onde as perguntas que surgem são tão valiosas quanto as respostas.
6. Como mulher escritora, você acredita que enfrentou desafios específicos dentro do meio literário? Se sim, quais foram os mais marcantes?
Acredito que sim, e um dos desafios mais marcantes para mim não é necessariamente algo agressivo, mas sim uma forma de limitação. Percebo que, muitas vezes, o interesse pelo meu trabalho fica muito restrito a temas específicos ou a épocas determinadas do ano. É comum ser convidada para eventos ou palestras no mês de março, por exemplo, por causa do Dia da Mulher, ou para falar exclusivamente sobre 'universo feminino'. Embora esses espaços sejam importantes, o desafio é ser vista como uma escritora que pode falar sobre qualquer tema, em qualquer momento, e não apenas quando o calendário pede uma 'voz feminina'. Essa sensação de que o nosso convite está atrelado a uma cota ou a um tema específico, em vez de ser apenas pela potência da nossa literatura, é algo que reflete muito como o meio ainda nos enxerga. A luta, então, acaba sendo para que a nossa escrita ocupe todos os espaços.
7. O que mais te fortalece nos momentos em que a inspiração falha ou quando surgem críticas ao seu trabalho?
Acredito que o que mais me fortalece é lembrar de tudo o que a poesia fez por mim. Desde, inicialmente, me salvar, até os lugares e as pessoas que ela me permitiu conhecer, e as possibilidades que ainda me permitirá. Meu livro já foi tema do semestre em uma escola onde estudei, e meus poemas já participaram de atos em prol das mulheres, na Paraíba. Repito: algumas coisas não têm preço!
8. Como a vivência em uma cidade do interior influencia diretamente a linguagem e os temas das suas poesias?
Nunca parei para pensar profundamente nessa questão, mas realmente sinto a diferença quando ocupo outros espaços, como quando fui para a Festa da Palavra em Belo Horizonte ou o Campeonato Nacional de Poesia no Rio de Janeiro. Acho que o interior confere à minha obra, em alguns momentos, uma certa delicadeza e calmaria, bem como meu amor por passarinhos e pela chuva.
9. Se você pudesse revisitar seu primeiro livro hoje, o que mudaria nele — e por quê?
É engraçado que, na primeira vez que li meu primeiro livro quando ele chegou, eu só consegui achar um milhão de defeitos. Mas, com o tempo, essa sensação foi diminuindo. Acho que não mudaria nada, não por presunção ou por achar que ele é perfeito, mas porque ele, do jeito que é, conta uma história.
10. Muitas pessoas idealizam a vida de um escritor. Na sua visão, qual é a maior “ilusão” sobre ser escritora que você gostaria de desfazer?
Ah, a maior ilusão sobre ser escritora, na minha visão, é a ideia de que a vida é um mar de rosas, cheia de inspiração constante e reconhecimento imediato. As pessoas veem o produto final, o livro, mas não imaginam o trabalho árduo e solitário por trás de cada palavra. Não é só sentar e esperar a inspiração cair do céu; é muita disciplina, reescrita e, sim, muitos bloqueios criativos. E tem a realidade financeira, né? Eu sou uma mulher que trabalha durante o dia, estuda à noite, treina, tem uma vida, sabe? (risos). E ainda escrevo. A escrita não é minha fonte de renda, então é um desafio enorme conciliar tudo isso: escrever, batalhar por editoras e editais, fazer a divulgação e ainda cuidar das vendas. É um esforço constante que vai muito além do ato de criar, e acho importante desmistificar essa imagem romântica para mostrar a dedicação real que existe por trás de cada obra.