Quando criança, a curiosidade sempre foi um dos meus principais motivadores. Queria entender como as imagens da TV chegavam pelo ar até a nossa antena “espinha-de-peixe”, descia pelos cabos e apareciam ali, na tela da televisão! Parecia mágica, mas algo dentro da minha mente me dizia que havia uma explicação, tal qual havia explicação para os dias quentes e para os dias frios. Acredito que a curiosidade é o fator inicial para se “criar” uma ou um cientista. E todos nós, independente do gênero ou qualquer outra característica, nascemos com uma certa curiosidade. No entanto, ao longo da nossa jornada formativa, seja ela escolar ou familiar ou, ainda mais profundamente, social, somos educadas para sermos mais polidas, reservadas e, às vezes, a nossa curiosidade é tratada como um mal comportamento ou falta de educação. Talvez seja por isso que ouvimos falar tão pouco de mulheres nas áreas de ciência e tecnologia. Talvez!
Mas hoje, com o acesso à informação cada vez mais difundido, descobrimos que ao longo da história da humanidade, que se mistura, ao meu ver, à própria história da ciência, nós, mulheres, sempre estivemos lá, sempre participamos das grandes invenções e descobertas. Então, por que nos livros de história encontramos majoritariamente rostos e nomes masculinos? Por que tantas de nós desistem pelo caminho? Ou por que tantas de nós se desmotivam antes mesmo de tentar? E por que, ainda, quando nós insistimos em perseguir nossos anseios criativos, inventivos e investigativos, o crédito, por vezes, vai para nossos pais, irmãos, maridos, professores, enfim, para pessoas do gênero masculino?
Este artigo tem o teor de um desabafo, mais do que de uma crítica. Eu sempre gostei de matemática e mais tarde, no ensino médio, me apaixonei pela Física, “A Física é linda”, costumava dizer eu quando comecei a ministrar aulas de reforço ainda no ensino médio. A curiosidade, tema inicial desta reflexão, me movia a compreender o por quê dos funcionamentos e de todo o universo ao meu redor. Encontrei, na Engenharia Elétrica, respostas para boa parte das minhas perguntas. E, então, surgiram outras: Por que tão poucas garotas interessadas em fazer Engenharias? Por que, nas aulas práticas, nós não tínhamos tanta chance de “botar a mão na massa” e, quando trabalhávamos em grupo, a nós cabiam as funções de redigir os relatórios, sob o pressuposto de termos a letra mais bonita? No meu caso, uma grande inverdade. Não sei se a experiência foi a mesma para todas as minhas colegas no curso de Engenharia, mas, na minha família, eu sempre fui tida como a “diferente”, por ter escolhido uma área tão “masculina”. Queriam saber de onde surgiu o gostar de matemática e física e querer aplicar isso em projetos e soluções que fazem o mundo se mover e as máquinas funcionarem. “É diferente e masculino”!
Mais tarde, ao concorrer às vagas de estágio, sofri diversos reveses, alguns já antes mesmo de tentar, ao comentar com alguém que iria me candidatar para aquela vaga, ouvia: “Ah, não vale a pena, naquele ambiente só trabalham homens, as atividades daquela empresa são muito masculinas.” ou “Ah, não adianta nem enviar o currículo, eles não contratam mulheres...”
Meu primeiro emprego foi na indústria, onde percebi a discrepância de tratamento entre mim e colegas que, inclusive, vieram da mesma turma que eu na graduação: o machismo velado, às vezes disfarçado de cuidado, de proteção, que me fechavam portas as quais eu sonhava atravessar, a diferença de remuneração e de oportunidades.
Cansada, fui buscar nos concursos públicos e, mais tarde, na área acadêmica, o espaço que a indústria insistia em me negar.
Me casei, fiz mestrado, tive um filho neurodivergente, fiz doutorado, conquistei minha primeira patente. Não livre de lutas e desafios! O meio acadêmico e científico, nas ditas áreas duras, também apresenta barreiras para nós mulheres. Imagina uma mulher negra então! O preconceito nem sempre é claro e direto, na maioria das vezes ele é disfarçado de piadinhas e brincadeiras. Hoje, como professora, quando vejo minhas alunas passando por tais constrangimentos, eu não me calo, mas ouço dos colegas delas: “Ela está acostumada, professora”, “Fulana já virou homem, nem liga”, “É só brincadeira, ela não se importa”.
Mas diante dos desafios da própria natureza feminina: ciclo menstrual, maternidade e climatério, ainda precisar provar constantemente o quanto se é “boa” e competente naquilo que você faz, naquilo que você estuda e naquilo que você pesquisa, talvez, penso eu, seja o motivo pelo qual tantas garotas desistem de ingressar na carreira científica e tecnológica antes mesmo de tentar, talvez mais do que falta de “gosto” ou aptidão, é o fato de sermos condicionadas desde cedo a duvidar do nosso próprio potencial e capacidades.
Sim, carreiras que derivam da Matemática e da Física e das demais ciências são difíceis e exigentes, mas não devia ser mais difícil nem mais exigente para nós, pelo simples fato de sermos mulheres!
Finalizo este artigo de reflexão pessoal deixando uma pequena inquietação para você, que o lê, seja homem ou mulher, preto ou branco: o que podemos fazer para tornar a ciência e a tecnologia mais justas, com a mesma “dose” de desafio para todos que ousarem tomar tal direção? Pois, ser desafiado não é algo ruim, mas quando o desafio é desigual e “pesa” mais para mim do que para você, devido a fatores biológicos e fenotípicos, algo de injusto paira neste lugar.
Sigamos fazendo, promovendo, acreditando na ciência e na tecnologia enquanto seres humanos dotados da capacidade de pensar, investigar e criar em prol de um mundo melhor, para além de um romantismo idealizado, de uma igualdade intelectual inatingível, mas para atitudes, ainda que pequenas, promovidas por mim e por você, caro(a) leitor(a), para, de fato, tornar o ambiente acadêmico e científico um local acolhedor para todos os seres pensantes e criativos que o adentrarem.