Arte

A lenda do suicídio de Sappho

Por Larissa Marques Ferreira

13/09/2026 21:24

Destaque
Imagem: “Sappho e suas alunas”, por Amanda Brewster Sewell, 1891

Há quem diga que um poeta entende mais sobre os sentimentos humanos do que qualquer um. Sappho era poetisa extraordinária, dona de si, e uma das figuras mais marcantes da literatura ocidental. Séculos depois de sua morte, uma tradição passou a associá-la a um salto do rochedo de Lêucade, episódio que inspirou dezenas de pinturas e gravuras. 


Natural da ilha de Lesbos, provavelmente viveu entre os séculos VII e VI a.C. e ficou conhecida principalmente por sua poesia lírica, marcada pela expressão de sentimentos, desejos, relações afetivas e pela musicalidade dos versos. Também fundou uma escola para mulheres em Mitilene, o que sem dúvida foi um dos seus maiores feitos, visto que vivia numa época onde o ensino era reservado para os homens.


Entretanto, uma das histórias mais famosas relacionadas à poeta pode não ter acontecido. Segundo a Suda (primeira enciclopédia clássica do mundo, que explica o significado de palavras difíceis e também conta histórias sobre pessoas, lugares e conceitos), Sappho teria se apaixonado pelo jovem Phaon e, diante de um amor não correspondido, teria viajado até o rochedo de Lêucade, onde se lançou ao mar.  


Uma das representações mais conhecidas é Sappho at Leucate, de Antoine-Jean Gros, realizada em 1801. Na pintura, Safo aparece à beira do precipício, segurando sua lira, enquanto o mar e a paisagem escura reforçam o clima dramático da cena. A obra transforma o episódio em uma representação de sofrimento amoroso e desespero.






Imagem: Pintura óleo sobre tela


Há também outras versões. Na peça trágica de Menandro (341-291 a.C.), Sappho teria se apaixonado por vários homens, mas teve seu coração roubado pelo barqueiro Phaon, mas Afrodite não permitiu que ele caísse em seus braços, a deixando em completo sofrimento e levando-a a se atirar do penhasco de Lêucade. Outros dizem que ela morreu de causas naturais após chegar à velhice. E por fim, é mencionada pelo geógrafo grego Estrabão, que segundo ele, Sappho teria sido a primeira a realizar o chamado “salto de Lêucade” por causa de seu amor por Phaon (esta menção pode ser associada à comédia Leucádia). 






Imagem: "Sapho", escultura de mármol realizada por James Pradier em 1852, exposta no Musée d'Orsay de Paris (França). Universidad Autónoma de Madrid. Acesso: 13 set 2026.


A tradição, porém, não é suficiente para comprovar que esse episódio realmente ocorreu. Estudos modernos apontam que a associação entre Sappho, Phaon e o salto provavelmente pertence ao processo de construção lendária da biografia da poeta. Inclusive, as fontes antigas não são unânimes sobre o desfecho: a tradição do salto nem sempre afirma que Sappho morreu, e a Suda é uma das fontes que efetivamente relata seu afogamento. 


Mesmo sem comprovação histórica, o salto de Lêucade tornou-se uma representação extremamente poderosa de Sappho. A partir do Renascimento e, sobretudo, nos séculos XVIII e XIX, artistas passaram a transformar a história em pinturas, gravuras e outras obras visuais. 


Graças a repetição da imagem de Sappho ser ligada a uma mulher destruída por uma paixão não correspondida, durante o século XIX, especialmente artistas e escritores utilizaram Safo para representar paixões intensas, sofrimento, desejo e transgressão. Ao mesmo tempo, outras obras enfatizaram sua relação com a poesia, a música e outras mulheres. A produção artística sobre Safo, portanto, revela diferentes maneiras pelas quais cada época reinterpretou a poeta. A história do salto de Lêucade permanece, assim, em uma zona entre a literatura, o mito e a memória histórica.


Fique com um trecho de sua poesia para consolar uma menina já estava na idade de se casar, mas que ainda não havia um noivo adequado: 


"No topo do galho mais alto, perdida pelos coletores a maçã avermelha, não por ter sido esquecida, mas por não terem conseguido alcançá-la [ainda]"